Shelter entrevista: O Branco e o Índio

Pessoalmente, não sou fã de classificações e gêneros, apesar de entender a importância, principalmente na hora de apresentar novos sons para as pessoas. Dito isso, não tem mesmo definição melhor para O Branco e o Índio do que a que a própria banda já faz: art-rock-pop-experimental.

Foto: Ana Paula Moniz

Talvez acrescentássemos só um “psicodélico”, mas o gênero já flerta o suficiente com o experimentalismo para dispensar tais apresentações. Com influências que vão de Júpiter Maçã e Os Mutantes até Sonic Youth e Neu!, o grupo é formado pelos guitarristas e vocalistas Flávio Abbes (IN-SONE e UAR) e Bruno Rezende (ex-Carne de Segunda, Canastra e Lucas Santtana), pelo baixista Roberto Souza (ex-Os Dissidentes) e pelo baterista Pedro Serra (Estranhos Românticos), que conversou com a gente.

A entrevista girou em torno de Plantas Renováveis, disco que saiu no mês passado e prova que é possível juntar batidas paraenses a riffs e solos que poderiam ter saído direto dos anos 70. E fazer funcionar, o que é o mais difícil.

Dá o play para entender do que a gente tá falando enquanto acompanha nosso papo:


1 – Como vocês quatro se tornaram “O Branco e o Índio”?

R – A banda começou como um duo noise-experimental com os guitarristas Flavio Abbes e Bruno Rezende em 2016. Em 2017, após lançar seu primeiro CD, eles começaram a compor canções com letras, mais “pop”, e começaram a cantar também. Então chamaram o baixista Roberto Sousa e eu (Pedro Serra, na bateria) para compor o novo time. Um ano depois está saindo Plantas Renováveis, um disco que mistura um pouco do noise-experimental de antes com rock, pop e outras coisas mais.

2 – Aliás, tenho minha teoria, mas de onde veio o nome da banda?

R – O nome não tem nenhum sentido profundo. Foi uma viagem do Bruno e o Flavio achou que seria um nome inusitado para uma banda. Mas fiquei interessado com a sua teoria… Aliás, acho isso uma coisa boa do nome, é aberto e faz pensar.

3 – Quando li logo de cara que “Golden Gol” era quase como uma peça de três atos misturando Júpiter Maçã com James Brown (e Chance!), tive minhas ressalvas. Mas é um som que funciona e transita de um para outro de forma natural. Como foi o processo de composição até chegar à cara que as músicas têm hoje?

R – O processo varia. Algumas músicas chegam prontas por cada um dos dois compositores (Flavio Abbes e Bruno Rezende), outras eles compões juntos. Trazem pro ensaio e trabalhamos o arranjo todos os quatro juntos.  É interessante isso que você falou sobre a junção de elementos aparentemente não-misturáveis, porque é exatamente isso que nos move. Em ‘Golden Gol’, por exemplo, o Bruno faz um solo bem “PinkFloydiano” no final , daí eu pensei “como posso subverter isso pra não ficar óbvio?”. Observei o espaço com silêncios que a música tinha nessa parte e mandei uma batida meio paraense. E não é que casou? Chamamos o nosso som de art-rock-pop-experimental. Art-rock por ser uma música que é rock, que trabalha com canção, mas não é convencional. O pop-experimental vem no sentido de trabalhar com vertentes opostas, juntando padrões da música pop com elementos da música experimental, como dissonâncias, ruídos, efeitos na voz, letras imagéticas, surreais e neo-concretas e timbres inusitados.

4 – A gente ouviu as experimentações que deram certo, como o Pratotarra em “Orelha Negra”. Teve alguma que não funcionou?

R – Na verdade, o Pratotarra surgiu justamente para resolver a parte final de Orelha Negra, com a qual não tínhamos ficado satisfeitos. Daí metemos um efeito estranho na bateria original, pegamos um prato que estava no estúdio, acoplamos a uma guitarra, ligamos em alguns pedais e foi. Acabou ficando um som parecido com um berimbal punk. Isso foi uma coisa muito legal da gravação desse disco. Como gravamos quase tudo no estúdio do Bruno em casa (menos a bateria e o baixo), a gente tinha tempo pra gravar e regravar o que não estávamos satisfeitos. Assim como a mixagem, que demorou um mês para ficarmos todos satisfeitos.

5 – Hoje em dia é difícil dissociar música de outras linguagens, como a visual. Vocês tem preparado alguma coisa nesse sentido, como um clipe ou um show que procura mostrar essa estética d’O Branco e o Índio também no visual?

R- O nosso som é bem imagético, por isso estamos demorando a associar imagens a ele. O engraçado é que eu trabalho com isso, dirijo e edito clipes, DVDs, filmes e programas de tv, o Roberto é ator e diretor teatral, o Flavio é artista plástico… Mas queremos que as pessoas primeiro façam suas próprias viagens no som, sem serem guiadas por nenhuma imagem que propusermos. Hoje em dia isso é tudo meio automático, né? A gente queria quebrar um pouco com isso. A música é o mais importante de tudo, depois vem o resto. E só agora, depois de lançar 5 singles e o CD, estamos começando a pensar em clipe. A idéia é fazer um clipe de ‘Orelha Negra’ e um curta para ‘Releitura das Plantas Renováveis’, que é uma música cheia de mudanças de clima e dá pra viajar mais.

Bruna Manfré

não é boa com descrições.

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