Resenha: Uma Vida Pequena – Hanya Yanagihara

Uma Vida Pequena” contém vários sentidos em si. O primeiro, e mais óbvio, cabe perfeitamente à narrativa do livro de Hanya Yanagihara. Afinal, todas as vidas são pequenas em sua essência – pequenos feitos e conquistas, uma família, um círculo de amizades, começo, meio e fim.

Mas há ainda um outro. O que representa a própria experiência que é ler: vivenciar esse simulacro de vida em poucas horas ou dias. E o que posso dizer de “Uma Vida Pequena” é que, além de qualquer outra qualidade, foi uma imersão marcante.

O conto de fadas às avessas a que somos apresentados só permite um único final, seu “felizes para sempre” delimitado desde o “era uma vez”, e ainda assim assistimos, em expectativa, esperando algo diferente – mesmo que a própria autora não dê indicação alguma de que isso pode acontecer.

Inclusive, pelo contrário. Essa foi a primeira vez que consegui visualizar um livro como uma obra de arte – como a própria autora comentou, ela queria que seu livro parecesse com um tecido em ombré, começando claro e brilhante até terminar em uma mancha preta que domina a tudo.

(essa aqui é a espinha dorsal do que você vai ler, ó)

Pois muito que bem. Do começo então: logo de cara, conhecemos esses quatro amigos que formam uma espécie de família da sociedade contemporânea. JB, Malcolm, Willem e Jude firmam a parceria durante a faculdade e, no decorrer do livro, acompanhamos as próximas décadas de suas vidas.

“Amizade era testemunhar o lento gotejar de tristezas, as longas crises de tédio e os triunfos ocasionais do outro. Era sentir-se honrado pelo privilégio de estar presente durante os momentos mais sombrios de outra pessoa e saber que você também podia ter seus momentos sombrios perto dela.”

À medida que avançamos, imergimos cada vez mais na vida de Jude. Propositalmente, ou não, até isso acontecer, pouco sabemos sobre ele além de um ou outro comentário sobre sua aparência ou seu jeito reservado, misterioso. Que a tudo escuta e nada entrega de volta.

A narrativa se dá por meio de diferentes pontos de vista, trazendo flashbacks e explorando uma longa ordem cronológica. Já aviso que não é uma leitura fácil, e, quanto mais nos apegamos à Jude e conhecemos seu passado marcado por cicatrizes (psicológicas e físicas), mais frequentes são as vezes em que é preciso fugir para a vida real, deixar o livro de lado por um instante e digerir as cenas pesadas de abuso sexual e psicológico, pedofilia e automutilação.

Mas Hanya consegue moldar as palavras em uma escrita assustadoramente bela, evocando empatia, horror e preocupação em uma história de superlativos não ditos, que enveredam para reflexões mais filosóficas. Qual é o limite para a resistência humana? O que se espera como felicidade?

Mais ainda: “Uma Vida Pequena” é, essencialmente, sobre relações humanas. Sobre amor. É nele que encontrei um dos retratos mais instigantes e inusitados de um relacionamento amoroso (sem spoilers aqui, quem sabe, sabe).

É verdade que, em pontos, seus superlativos ultrapassam tantos limites que chegam a se distanciar demais da realidade – e atenção pro spoiler, mas, em pouco mais de dez anos depois da faculdade, todos os quatro alcançaram conquistas absurdas na vida profissional. Todos os personagens são intrinsicamente bons ou intrinsicamente ruins, não há meio-termo.

Outro ponto criticado, e com um fundo de razão, é o tamanho do livro. Embora o Kindle tenha estendido a leitura para umas 1000 e poucas páginas, a versão física gira em torno das 700. E sim, algumas partes poderiam ser enxutas (por exemplo, toda a descrição sobre o trabalho de JB – sim, já entendemos o quanto ele é bom artista). Apesar do susto inicial, isso, no entanto, não foi algo que particularmente me incomodou. Pelo contrário, colaborou no nível de profundidade com que conheci e me conectei com cada um dos personagens principais, e na resposta afetiva que veio a partir daí.

“Por isso tento ser amável com tudo o que vejo, e em tudo que vejo, eu vejo ele.”

Tendo isso em vista, não tem como dar algo diferente de cinco estrelas para uma obra tão devastadora. É uma jornada longa e tortuosa, mas inesquecível. Vá por sua conta e risco.

Nota: ★★★★★

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Bruna Manfré

não é boa com descrições.

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