Shelter entrevista: Paul Lafontaine, criador do projeto “Alma de Batera”

Não faz muito tempo, comentei aqui sobre a palestra que o Paul Lafontaine daria no Parque da Vila. Então, conversei com ele sobre o projeto Alma de Batera e sobre como professores de música e nós podemos ajudar para levar a iniciativa, que é tão legal, para frente.

Para contextualizar quem não acompanhou, o Alma de Batera é um projeto de inclusão social de pessoas com deficiência por meio da música. Baterista e pedagogo, Paul já transformou a vida de mais de 300 alunos – também, são quase uns dez anos de estrada por aí.

Confira o bate-papo para saber mais:

Como começou o Alma de Batera? Quando você começou a estudar pedagogia, já tinha ideia de aliar isso à música?

R: Depois de algumas experiências bem significativas como voluntário na Fundação Dorina Nowill para cegos e na equoterapia da Hípica de Santo Amaro, minha vontade de trabalhar na área de inclusão se tornou enorme. Eu resolvi voltar para faculdade e estudar pedagogia justamente para trabalhar com esse público, apesar de não saber o que iria fazer e onde iria trabalhar. Durante minha formação, o meu professor de bateria na época foi procurado por uma instituição que queria aulas de bateria para quatro alunos com deficiência. Como ele nunca havia dado aulas para esse público e devido ao meu interesse na área, ele me indicou. Eu nunca imaginei unir minha paixão pela bateria com essa questão de inclusão de pessoas com deficiência mas resolvi encarar esse desafio. Então, em 2008, criei o projeto Alma de Batera, com a proposta de oferecer aulas de bateria para esse público alvo.

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Foto: Divulgação

Você acha que ainda hoje existe muito despreparo da parte dos professores de música para lidar com pessoas com deficiência?

R: Sim, acredito que ainda exista muito despreparo por parte dos professores. No meu ponto de vista, para se tornar um professor diferenciado não é necessário apenas ter conhecimento técnico ou prático, mas sim uma abordagem que atenda o processo de aprendizagem de cada indivíduo, independente se o aluno tenha uma deficiência ou não. Mas quando se trata de uma pessoa com uma condição que pode limitar ele de alguma forma, uma abordagem diferenciada, mais preparada e bem planejada se faz necessária.

Quem pode participar do projeto? E como se inscrever?

R: As aulas são focadas para as pessoas que tenham alguma deficiência muito por conta do despreparo de professores e pela falta de oportunidades na sociedade para esse público. No momento, por falta de um patrocinador, estamos com poucas vagas, todas elas preenchidas, e não estamos inscrevendo novos alunos.

Como funcionam as aulas? São preparadas especialmente conforme a deficiência de cada aluno?

R: Eu tento adaptar as informações para uma linguagem ou uma forma que o aluno consiga assimilar conceitos importantes para se tocar bateria. São aulas preparadas com exercícios básicos, que utilizamos associação de imagens, de fácil entendimento para o aluno, trabalhando com as peças separadas e de forma individual, conforme a necessidade e o grau de dificuldade da cada um. Dependo muito do tipo de deficiência para elaborar uma abordagem que dê certo e um formato de aula mais acessível para cada perfil de aluno. Eu acredito que o segredo é respeitar o processo de aprendizagem de cada um deles.

E de que forma outras pessoas podem ajudar? Qualquer um pode entrar na escola para capacitação de novos professores?

R: A ajuda pode acontecer de várias formas e não somente diretamente, como professor na aula, junto ao aluno. Abrimos oportunidades para voluntários que nos ajudam em aulas, eventos ou ações específicas. Recebemos também doações de instrumentos, serviços especializados que atendam a necessidade do instituto e contribuições em dinheiro. A capacitação de novos professores é voltado especificamente para bateristas que gostariam ampliar sua abordagem pedagógica e atender esse público alvo.

Como andam os planos para expandir e alcançar outras regiões do país?

R: Em 2017, vamos utilizar recursos através de leis de incentivo para aumentar o número de vagas de alunos aqui em São Paulo, e assim, buscar novas parcerias para levar nossa ideia para outras cidades do Brasil. A capacitação de novos professores já está acontecendo e é um grande passo para nosso objetivo de expandir nossa proposta para profissionais de São Paulo e de outros locais do país. Diversas pessoas já entraram em contato conosco e existe um interesse grande de profissionais do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Paraná e Santa Catarina. Queremos fazer a ponte com todos e dar suporte para a abertura de novos locais de atuação para o Alma de Batera.

Para finalizar, teve algum momento em que você sentiu mais orgulho do projeto?

R: É difícil falar de um momento específico. Sinto muito orgulho quando o aluno consegue se superar nas suas limitações, consegue tocar uma música na bateria e realizar seu sonho. É um momento muito especial para todos. Algo que também me faz sentir bastante orgulho é a participação de bateristas convidados nas aulas e a troca de experiências que acontece entre eles e os alunos. As apresentações em locais públicos e a inclusão desses alunos no contexto cultural da cidade, me traz muito orgulho também e emociona. Num contexto geral: acompanhar hoje o crescimento, o reconhecimento e o engajamento de várias pessoas com a nossa proposta, proposta essa que no começo todos achavam que era loucura e que hoje é uma realidade, me traz muito orgulho.

 

Caso você tenha perdido a palestra, pode se preparar que tem mais: amanhã, no aniversário de São Paulo, acontece uma oficina fotográfica gratuita com saída prática pela Vila para debater aquele assunto tão comentado nos últimos tempos: grafite, piche e a “cidade linda”.

Bruna Manfré

não é boa com descrições.

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