SHELTER entrevista: todo o processo de ressignificação do Luvbites

A inquietude dá o tom de “Loud Fast Soul”, álbum lançado hoje pela Luvbites. Esse é o segundo esforço da banda londrinense formada por Júlia Dutra (voz e órgão), Leticia Blue (bateria e voz), Igor Diniz (guitarra e voz), André Felipe (baixo e voz) e Wiu (guitarra e voz).

Nele, embarcamos em uma jornada que passa do rock clássico à soul music, com arranjos vocais impecáveis durante os pouco mais de 20 minutos. “Reverbs e guitarras altas são somados, pela primeira vez na banda, aos coros de vozes de todos os integrantes em quase todas as faixas, referência clara aos anos 50 e 60, à soul music e gravadoras como STAX”, explica Igor.

Foto: Gabriel Zambon

Se esse é o panorama sonoro, tematicamente, o que se percebe é muito daquele espírito livre e questionador da pop art, mais e mais presente (e necessário) em tempos atuais. E isso fica claro já no nome do álbum, que faz alusão à soul music, mas também enaltece Robert Mapplethorpe, artista, fotógrafo e um dos melhores amigos de Patti Smith.  

Questiona-se o ter x ser e esse eterno paradoxo entre a essência e a aparência. Nas palavras de Igor: “em tempos de fluidez de informação, catástrofes biológicas, modernidade líquida, descaso com a natureza, momento no qual o ter e o consumir se sobrepuseram à essência dos indivíduos e do planeta, apresentamos um disco propositalmente com sete músicas, álbum breve, que além de trazer a carga mística de transformação do número sete (sete são os dias da semana, sete são os principais chakras, mosaico de cores do arco-íris, sete virtudes cardeais, sete pecados capitais), ainda aponta aspectos da dualidade em que estamos inseridos, vivendo neste mundo efêmero”.

A decisão de optar por um álbum mais conciso se mostra acertada em tempos de streaming e dispersão. E, ao chegar na trinca final, estamos submersos nesse universo de bateria groovada, synths e ares de psicodelismo. Já na primeira ouvida, pega-se referências da soul, disco, funk e até mesmo da contracultura punk e do blues.

Dá o play para acompanhar a conversa que tivemos com o Igor Diniz sobre processos criativos, referências e upcycling, tema recorrente que se traduz em questionamentos e iniciativas do Luvbites:

Nos arranjos vocais a gente já percebe a sincronia da Luvbites. Mas como funciona o processo criativo de vocês e como ele evoluiu do primeiro para esse segundo álbum?

As meninas são grandes vocalistas e  têm ouvido bom. Elas cantam bem de verdade, os meninos também são  afinados, sabem usar as terças certinho e isso já é meio caminho andado. A Júlia cria grande parte dos arranjos, ela sabe fazer muito bem isso, e, então, ela passa pra gente. Todos participam, mas a Jú e a Le são realmente boas nisso. Juntas abrem vozes e fazem os ensaios ficarem bem mais agradáveis. Elas são criativas nas composições dos arranjos. Você ouviu o coro full time que elas fazem na música Loud fast soul? A Letícia fez metade daquele arranjo me ouvindo tocar no violão e a Júlia fez a outra metade depois de ver o que a Le já tinha feito. É assim, elas ficam conversando, testando e vamos inserindo terças… Quando todo mundo se olha, a gente sabe que está bom.

 Sobre a evolução para o segundo álbum

A Letícia e o Wiu não estavam no primeiro álbum, que ficou mais concentrado em mim, Júlia e André.  Já o LOUD FAST SOUL tem a forte influência de todos os cinco da banda, o Wiu sabe o que faz na guitarra e voz, o Dedé está compondo e influencia muito a banda, pois mora com a Jú e os dois partilham das mesmas referências, a Letícia é bem precisa na bateria, grava as coisas de primeiro take, e na voz não tem erro, nem problemas com afinação. A gente escrevia as músicas, ensaiava em média cinco vezes e ia fazer show em São Paulo e gravar no Lamparina com o Gutão, gravamos sempre uma música por dia. Esse disco foi feito em sete dias de gravações, divididos  em diferentes finais de semana do primeiro semestre de 2019.  Depois de gravar o disco, começamos a estudar música também, teoria, tá ficando cada vez mais legal.

Como foi esse processo de troca de referências e produção para o clipe de “Youthquake”?

A banda  troca referências diariamente por aplicativos, insta, temos nosso grupo, damos muita risada com a Letícia,  trocamos vídeos, filmes fotografias, falamos sobre arte,  discos, bastante de moda, cultura de sustentabilidade,   agroecologia, a gente sabe quais são nossos pontos comuns.

O vídeo foi dirigido por mim e pelo Gabriel Zambon. Nós trocamos muitas referências por dois meses e muitas coisas que eu passava ao Gabriel vinha da Júlia, do Wiu, da Letícia e do André. O cenário amarelo de madeira veio de uma referência que a Leticia Blue me mostrou, os  takes em zoom  acelerado vieram de uma referência que a Júlia e o André me mostraram, enfim,  a banda tem a cultura maker, do faça você mesmo, DIY, enraizada nos processos. 

Temos também a sorte de contar com apoio de artistas que nos ajudam, como o Gabriel, que, aliás, é um excelente diretor.  O Gabriel sugeriu fazer um clipe em velocidade lenta, em um slow quase imperceptível, foi uma ideia muito criativa que deu a cara pro vídeo. Eu gosto como os movimentos parecem leves por causa desse efeito, deu beleza à atitude proposta no conceito, só que para gravar precisa de cuidado, tem que acelerar o tempo da música e dublar em tempo acelerado, para depois voltar pro slow.

A banda também tem um  grande amigo chamado Thiago Batista, que trabalha com moda e  é diretor de arte. Ele tem grande influência em nossas decisões e está sempre apontando caminhos e soluções possíveis a partir de nossas referências. O Thiago e eu fizemos uma grande pesquisa sobre Nouvelle Vague para um  outro trabalho, meses antes do Gabriel Zambon vir filmar a banda e, portanto, a pesquisa foi o alicerce para formar a identidade visual do clipe.

A direção de arte e figurino que  montei foi, em sua maior parte, feito por meio de upcycling, combinando cores primárias e pensando em apresentar os integrantes de forma individual, fazendo as cores e sobreposições de cores ressaltarem  a identidade de cada um.

Falando nisso, muitas das referências em “Loud Fast Soul” remetem àquele período entre o final dos anos 60 e começo dos 70, quando muito da arte era quase uma tradução do espírito jovem. Se vocês pudessem trazer alguma característica comportamental daquela época para agora, o que seria?

 O ímpeto de juventude que pulsava na época, o espírito livre e a contra cultura.

A opção pelas sete faixas do álbum parece também uma escolha proposital, que traz todo o aspecto místico em volta do número em si. Mas em algum momento vocês se questionaram sobre formatos e pensaram em optar por não lançar o álbum e dividi-lo de alguma forma?

Legal essa pergunta!

No final de 2018, quando fizemos o primeiro show em São Paulo no estúdio Lamparina, tínhamos a ideia de fazer um EP, duas músicas. O Gutão, que é  o produtor e proprietário do estúdio, ficou bastante empolgado com as músicas e abriu as portas pra gente caso tivéssemos mais músicas.  

Íamos lançar o Hot Days Long Nights no início de 2019, então, pareceu bem oportuno aproveitar as idas a São Paulo pra fazer shows e gravar o segundo, já que a gente tinha as músicas. Foi corrido tocar em uma cidade na quinta ou sexta e ir direto pra São Paulo, chegar quase que direto no estúdio, gravar o dia todinho e ir fazer show à noite, mas não há melhor lugar para se estar do que dentro de estúdio gravando ou prestes a fazer um show, a gente curte. (Ah, no mato também é bom). Quando chegamos em 7 músicas decidimos parar  e gravar o clipe de Youthquake e começar a pensar em como  e quando soltar.  Disco curto é massa demais e 7 é um número poderoso. Os números 9, 11 , 22 e 33 sãos legais também.

O upcycling é um tema recorrente na banda. Contem mais sobre as iniciativas da Luvbites nesse sentido e em como isso se traduz num álbum em que a inquietação e o impulso de transformação são constantes, seja nas letras ou nos arranjos.

 Que bom  você tocar no assunto, obrigado! Eu acho que vai ficar grande, pode? Seria muito legal poder falar disso,  não perguntam muito e é urgente o assunto.

A natureza é  transformação por excelência. Ela é Mãe do devir que nos permite evoluir enquanto espécie. Tudo vibra, nada está parado. A evolução das espécies, dos animais, das plantas é dada pelo movimento. Porém, alguns movimentos geram fluxos de energias e diversidades e, outros, o contrário.  A atuação da espécie humana no planeta está levando o ambiente ao descompasso, o organismo TERRA está desregulado por causa de nossa intervenção no meio. 

As políticas globais, as grandes corporações e o programa de consumo em que vivemos não se sustentam mais, porém, os donos dos  meios de produção, do capital, das tecnologias e inteligência artificial, em sua maioria, estão concentrados em gerar lucro, manipular comportamento das sociedades, e tentam manter o povo  na escuridão enquanto acumulam  riquezas, fingindo não conhecer o déficit ambiental  em que estamos inseridos.

A cultura do excesso

Tem gente negando ainda o aquecimento global! Veja nossos sistemas de produção de alimentos baseado em monoculturas agrícolas (e pecuárias), por exemplo. Monopólios de latifúndios, de monoculturas, tratam, em  todo o mundo, o solo como um objeto estático a serviço do consumo desenfreado que acelera colheitas, desmata, promove gastos excessivos de recursos não renováveis, consome muita água, extingue a biodiversidade do ambiente e, como sabemos, sem biodiversidade  a  terra enfraquece, o solo fica exausto e fraco, solo fraco =  planta fraca.

Se a planta está fraca, fica mais exposta a pragas, insetos e doenças, para conter as doenças o que os produtores de monoculturas fazem?  Uso extensivo de agrotóxicos, que agora, aliás, chamam  pelo nome de “defensivos”, mero eufemismo, não se enganem.  O solo que vem sendo explorado  incessantemente, sem descanso, além de exausto e pobre em nutrientes por ter sido desmatado  e exposto ao sol, ainda é contaminado! As plantas parecem verdinhas e saudáveis nas plantações em beiras de estradas quando passamos e olhamos, mas a realidade é que elas já estão fracas na estrutura, contaminadas e doentes, pois o solo  já não possui nenhuma biodiversidade, perdeu milhares de nutrientes que agora são substituídos por meia dúzia de substratos que não chegam nem perto de fornecer a energia vital de um solo com biodiversidade latente.

A gente se alimenta dessas plantas, os animais que as pessoas comem também. O resultado é uma sociedade  doente, que precisa ser remediada o tempo todo e um ambiente devastado.  Repita essa fórmula por 100 anos e o colapso é dado. A conta não fecha no fim do mês se você ganha 100 e gasta 500 repetidamente. Por maior que seja a sua reserva, em algum momento ela entrará em colapso e você vai falir.

Alguns produtores argumentam que esses processos de monoculturas agropecuárias são essenciais para que o mundo não passe fome, mas não é verdade. Pela primeira vez na história tem mais gente morrendo pelo excesso do que pela falta, morrem mais pessoas pelo  consumo excessivo de alimentos, obesidade, diabetes e debilitações causadas pelo alto índice de açúcar na alimentação do que pela de fome, a proporção estatística é de quase 3×1. Nosso problema não é a falta de alimento que o mundo pode prover, mas a má distribuição dos recursos, forma de consumo enraizada em valores equivocados e acúmulo de riquezas.

Um LP ecologicamente viável

Esse é o cenário no qual estamos inseridos hoje. Chegamos no vermelho! Estamos falidos, mas é possível  que o panorama mude novamente. Tudo é movimento, lembra?  A tecnologia que degrada também pode ser usada a favor da reconstrução, da biodiversidade e das espécies. Iniciativas ecologicamente viáveis podem ser postas em prática e gerar receitas. As ciências e a instrução podem empoderar pessoas e processos e  possuem potencial para prover recursos de maneira sustentável mesmo em um mundo superpopulado.  Temos que pensar novo, virar a chave.

Nosso primeiro álbum, por exemplo: tivemos a oportunidade de  lançar um vinil, que saiu pela pela Fatiado Discos, pensamos: Hum, será? E o impacto ambiental de um LP? Tem o papel da capa e o material da bolacha, como podemos fazer para minimizar o impacto e ainda gerar um debate acerca de novas formas de consumo?

Chegamos à conclusão de que fazer o LP poderia ser legal se conseguíssemos que o papel das capas fosse reciclado, e a empresa MOINHO BRASIL nos possibilitou esse acesso aos papéis recicláveis.  A Renata Telles pesquisa há 30 anos formas e fórmulas de reciclar e de produzir papel de maneira sustentável.

E a bolacha? Como não tínhamos em nosso alcance a tecnologia para reutilizar plástico reciclado na produção das bolachas, decidimos selecionar árvores de reflorestamento compatíveis com  o ecossistema que tínhamos disponível e plantamos as mudas  no sítio CONECTE PLANTE ( negócio social voltado à Agroecologia e à tecnologias de sustentabilidade). Para cada exemplar (foram 300), plantamos uma árvore, nós mesmos, junto do Ítalo, cofundador da Conecte Plante. As mudas foram doadas pela  UNIVERSIDADE ESTADUAL DE LONDRINA, a Alba, bióloga responsável pelos viveiros de mudas, faz questão de fornecer as plantas e incentivar plantios. Assim lançamos o primeiro LP ecologicamente viável no  Brasil (até onde sabemos) no ano passado.  

O upcycling e o merch

Ser  totalmente sustentável  é impossível, todo passo gera uma pegada, mas iniciativas  locais podem transformar e influenciar meios de produção e consumo, tanto localmente quanto globalmente, desde que organizadas em coletivos, grupos  estruturados de pessoas, pois percebemos que o indivíduo sozinho possui imensa desvantagem contra os donos dos meios de produção, inteligência artificial e do capital. 

Na moda, a mesma coisa, o upcycling é uma alternativa para produção de moda sustentável. É uma linha  de pesquisa dentro da sustentabilidade que visa a reutilização de produtos, resíduos de tecidos, para a produção de novas peças. Resíduos esses que antes iriam para o lixo. O upcycling  tem essa função de agregar valor a um material que era considerado descartável, (não é interessante o movimento de fluxo e refluxo?). Eu aprendi isso com a estilista e especialista em moda sustentável Bianca  Baggio, que foi quem me sugeriu que a melhor saída para nossas peças de roupas de merch  seria  fazer peças  através do reuso de roupas já existentes.  Assim fazemos, é claro que, às vezes, compramos peças novas, mas a ideia e a propagação  do conceito está presente em nossa relação com o consumo e o meio em que vivemos sempre que possível. É um aprendizado!

Novas soluções

No ramo de produção de alimentos, temos a agroecologia moldada no Brasil pelo suíço Ernest Gotsch e já replicada por todo o país, na Conecte Plante inclusive, e que se mostra  muito eficaz na produção de alimentos em pequena ou grande escala. Gera lucro e não deteriora o  meio ambiente. A agroecologia entende o solo como um organismo vivo.

Até meses atrás, tínhamos viva em nosso país a Ana Primavesi, autoridade no assunto, que  estudou o solo a vida toda e propagou o conceito de solo como organismo vivo, com energia vital, em movimento, pensando sempre em redes sistêmicas de aprendizagem e inspiração pela natureza que entendem os ecossistemas em sua essência  e os aproveita em nosso favor, sem degenerar o meio.

Temos também a Jellyfish barge proposta  pelo grande cientista e bíólogo italiano Stéfano Mancuso, que ganhou muitos prêmios científicos ao redor do mundo com essa invenção, mas não teve um só investidor a fim de promover produção  de alimento sustentável feito com energia renovável  e  material reciclado.

A Jellyfish Barge,  além de ser uma forma de produção de alimento limpa, não ocupa o espaço terrestre, pois é feita em barcas acima do oceano que se retroalimentam  de  energia solar, e  capta  e dessaliniza  água do mar. O alimento cresce saudável a preços similares de estufas se levarmos em conta a energia que usamos  do ambiente para que uma planta  cresça em estufa ou no solo.

A favor de toda diversidade

Na arquitetura e no design,  temos a permacultura, a bioinspiração, enfim, existem meios para reduzir o impacto inevitável de nossa existência e soluções para novas formas de energias e produções. A tecnologia que tem provocado o desequilíbrio agora precisa trabalhar para regenerar. O estilista Dudu Bertholini disse esses dias algo que achei  bem legal com o mesmo sentido, porém sobre a moda: “a moda que segregou agora precisa incluir”.

É a mesma coisa, percebe?  Somos jovens, lutamos em favor de toda diversidade, seja das pessoas ou da biodiversidade do planeta.  Por fim, creio que o ser humano que por tanto tempo buscou a felicidade fora de si, no consumo desregulado, no efêmero, agora precisa se reconectar  e se redescobrir como parte do meio. A discussão está aberta a todos.

Aprendemos observando a natureza, temos exemplos de pessoas que pensaram diferente e redefiniram estruturas. Agora vejo no ímpeto de juventude a energia vital capaz de ressignificar a si mesma, pressionar políticas, influenciar os mais velhos, transformar o próximo e o mundo à sua volta. E meditar ajuda!

Bruna Manfré

não é boa com descrições.

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