SHELTER entrevista: formação de identidade em tempos de pandemia por Suco de Lúcuma

Processos criativos estrangulados e picos de ansiedade. Esse tem sido o novo normal para muita gente que vive de boas ideias. Novas referências, então, são sempre bem-vindas. E é nesse cenário frente ao caos que surge “Quase Rosa, Quase Azul”, primeiro trabalho de estúdio da Suco de Lúcuma.

Um álbum duplo, denso e intrinsicamente conectado, com faixas que se conversam e complementam. Flertando com o surrealismo, o trabalho, que levou mais de dois anos para ficar pronto, bebe da fonte do indie psicodélico para criar texturas lo-fi e embasar as jornadas a que se propõe.

Durante as 9 faixas de cada álbum, encontramos uma alegoria à própria manifestação artística, passando do brainstorm e seu grande recorte e cole de memórias até àquele momento que antecede um insight, onde a ideia está quase ali ao alcance – mas ao mesmo tempo nos foge –, vividos sob dois pontos de vista distintos: azul e rosa.

 Ambos se relacionam e criam experiências ligadas às expectativas e vivências do próprio ouvinte. Resultado? Facilmente um dos grandes destaques do ano. Logo no dia do lançamento, “Belém” disparou para a playlist Indie Brasil, no Spotify.

O disco marcou ainda o início da Orelha Muda, selo e produtora fundada pelos integrantes da banda: Thomáz Bonatto (vocal, guitarra), Carlos Bechet (vocal, guitarra), Felipe Pizzutiello (baixo) e Vicente Pizzutiello (bateria).

 Tivemos um papo sobre o processo de composição, lançamentos em tempos de quarentena e o No Âmago:

Logo de primeira, dá pra dizer que “Quase Rosa, Quase Azul” é um trabalho denso, que se complementa ao mesmo tempo em que traz dicotomias. Quanto tempo levou até ele ficar no formato em que vocês esperavam? Como foi esse processo para vocês?

O processo inteiro demorou uns 2 anos e meio. Começamos antes de tudo fazendo a capa, queríamos uma imagem que servisse como guia pras composições e arranjos. As músicas surgiram de maneira bem espontânea, utilizando algumas técnicas surrealistas como automatismo e Cut-Ups. Criamos as bases dos arranjos e letras para logo tentar racionalizar todo o nosso material.

Nesse ponto foi onde surgiu a ideia de fazer dois discos ao invés de só um, e que as relações entre eles existissem desde a sua própria concepção, então a produção dos álbuns começou a levar esse caminho. O processo inicial de composição foi bem rápido, e junto com a pré-produção durou uns 3 meses entre o fim de 2017 e começo de 2018.

Depois disso, gravamos o baixo e bateria da maioria das músicas, em Maio de 2018, aí fomos experimentando por cima disso e, ao longo de mais um ano fomos criando as camadas de guitarra, efeitos, e finalizando as letras. A mixagem foi feita por nós também, e demorou perto de 10 meses, nesse tempo surgiram ideias novas, e conseguimos fechar toda a relação entre os discos, desde as mais evidentes até as mais rebuscadas.

Podemos dizer que esse tempo foi como uma escola para nós, realmente nos entregamos completamente para fazer o melhor possível. As prés foram bem intensas, ficávamos dias inteiros tocando as músicas e analisando tudo. A mixagem foi demorada por esse motivo também.

Construímos uma ideia de sonoridade utópica através de muitas referências, e ficamos muito tempo tentando chegar nessa sonoridade, considero que esses meses foram onde aprendi a realmente fazer uma mixagem. Nos últimos meses finalizamos a masterização, que originalmente mandamos fazer fora do Brasil, mas o resultado do disco não foi o esperado, e decidimos fazer por conta própria.

Falando em timing, vocês optaram por lançar em meio à quarentena, junto ao começo do Orelha Muda. Como banda e selo, como vocês têm se adaptado a esse período?

É um momento muito difícil mesmo, onde as pessoas precisam se informar e é necessária essa bomba de notícias. Dentro disso, nós acreditamos que é um momento também onde as pessoas precisam de expressões artísticas, a decisão de lançar nessa época foi definida por uma vontade de influenciar ou confortar de alguma maneira as pessoas.

A Suco ganhou sua session há pouco tempo e agora tem o No Âmago também ganhando vida. Como vocês veem o papel dessas sessions, em específico, para as bandas? Pergunto porque, além de mostrar o ao vivo (que acaba sendo o papel mais comum), tem um trabalho conceitual bem forte por trás do projeto, que anda muito junto com a formação de uma identidade visual proprietária.

Sim, a ideia do projeto surgiu de ter assistido muitas sessões onde se prioriza a quantidade de músicas ou de artistas, sem explorar as possibilidades tanto da performance como da própria experiência visual. Fizemos tudo que conseguimos dentro das nossas limitações, a Camila Sanchez foi uma peça chave para o projeto, que desenvolveu os planos sequência e produziu o projeto junto ao Bechet. Nossa vontade com No Âmago é de poder mostrar os artistas na sua melhor versão, por dizer assim, sem deixar passar qualquer detalhe na produção do material.

Essencialmente o conceito das sessions se originou na ideia de que existem bandas contemporâneas fazendo arte nesse momento, coisa que muitas pessoas não estão muito ligadas, ou que acreditam que o passado é melhor por uma ligação nostálgica inconsciente.

Uma curiosidade que bateu aqui foi sobre as músicas com “quase palavras”, como “Dada” e partes da “Aetuketohl”. Parece muito aquele momento em que você tem a palavra na ponta da língua, mas não consegue lembrar qual é. Elas têm palavras reais oficiais? Como chegaram nesse resultado final?

Na construção do conceito do disco a gente quis implementar um pouco a ideia de hipótese projetiva, criamos uma narrativa bem racional nos discos que logo foi cortada, deixando buracos muito grandes para criar ambiguidade. A sucessão de fatos da nossa história nos dois álbuns é a mesma, só que acontecendo em duas “personalidades” diferentes, cada uma agindo de acordo às características que nós colocamos nelas.

 Ao invés de falar as coisas de maneira literal, as letras falam de pontos de vista mais fragmentados, como pequenos pedaços de uma história mais comprida, como acontece no livro “Jogo da Amarelinha”, do Julio Cortázar, que nos influencia bastante.

Bem nessa parte dos discos, na faixa 6, é incorporada a ideia de excessos como uma consequência da abertura e desgaste emocional, (faixas 5) depois de um processo artístico e criativo (faixas 4). Essa ideia é representada em Dada com balbucios, mostrando uma personalidade que se entrega mais àqueles excessos, já em Aetuketohl, existe uma tentativa do personagem de controlar os efeitos dos excessos.

As músicas revelam um pouco mais a persona que cada disco representa, e o nome Dada, além de fazer alusão ao dadaísmo, representa a submissão da personagem a esses excessos. A letra é isso mesmo, um balbucio aleatório que procura gerar uma varrida no inconsciente na busca de palavras e conexões que façam sentido ao ouvinte. Depois de finalizar a música, pra atingir um efeito específico no Booklet do disco físico, a gente racionalizou um pouco e colocou um blur em cima de um molde de letra, mas não tem uma letra oficial, vai do que a pessoa está ouvindo e conectando. Aetuketohl já é mais como um eufemismo inconsciente, o nome não é um balbucio, mas uma distorção da frase “I took it all” como uma tentativa da própria personalidade em esconder os excessos. Chegamos no conceito dessas músicas junto com as do disco como um todo, através de muitas horas de análises e experimentação.

E como o álbum aborda muito todo o processo criativo, queria saber também se vocês têm conseguido manter a criatividade nesses tempos. E o que tem visto para se inspirar?

Nesse momento os acontecimentos atuais e a nossa maneira de lidar com eles estão sendo a nossa maior fonte de inspiração, artistas contemporâneos como Bandalos Chinos, Jakob Ogawa, Liniker e artistas do passado como Chico Buarque, Silvio Rodriguez, Spinetta, que conseguiram abordar temas sociais de maneira que gere autocrítica e introspecção nas pessoas por vontade própria, também. Atualmente estamos já trabalhando em composições novas e esperamos poder começar a trabalhar num novo disco logo.

Bruna Manfré

não é boa com descrições.

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