SHELTER entrevista: a canadense Julie Neff e sua brasilidade nata

A relação de Julie Neff com a música brasileira não é de hoje. Essa história data de 2017, quando a artista conheceu as bandas Scalene e Trampa no Indie Week, em Toronto. Desde então, o intercâmbio se intensificou e rendeu fruto dos dois lados.

 Aliás, se tem uma palavra que parece permear todo o seu trabalho é exatamente essa. Julie é daquelas artistas que ajudam a unir e não tem medo de fortalecer os outros ao criar novas conexões, seja em seu próprio campo ou em áreas que caminham paralelamente, como o design e a moda.

No começo do ano, foi São Paulo a casa de alguns dos primeiros testes com as músicas do novo EP. Apesar dos planos interrompidos pela pandemia, Julie tinha se mudado para cá e chegou a tocar no Mirante 9 de Julho com uma formação só de mulheres para o Março Feminista.

A inspiração transborda em suas músicas, não só pela vivência como também da troca com artistas locais. “Over It” é o primeiro single desse trabalho e, mesmo diluída em meio a guitarras daquele indie pop poderoso e intrinsicamente feminino de artistas como Florence Welch e Feist, é possível encontrar nuances de uma brasilidade nata – apelidada de “forrozinho” pelos amigos daqui.

“Over It descreve o momento da vida em que você se vê afundado em um emprego ou em uma situação que já o desgastou, o queimou, o machucou, e você sabe que precisa se libertar disso tudo. A epifania esclarece tudo, embora você ainda não saiba como sair. A hora certa de fazer a mudança ainda não chegou. Tudo já está claro, você sabe como será o outro lado, mas ainda não sabe muito bem como atravessar até a outra margem do rio” – Julie Neff

Essa habilidade de transformar experiências pessoais em uma visão mais universal atravessa suas músicas e virou tema de uma conversa que tive com Julie – assim como suas parcerias com outras artistas. Confira a seguir!

Primeiro, eu queria dizer que minha visão talvez esteja meio envenenada por ter nascido aqui, mas eu precisava saber: de todos os lugares do Brasil, por que morar em São Paulo?

Haha boa pergunta. Eu tive uma oportunidade para fazer um projeto, especificamente, em São Paulo. Então, foi por isso.

Aliás, ainda sobre isso, como é o seu processo criativo? Acha que de alguma forma os lugares onde escolheu morar influenciaram a sonoridade e o mood das suas músicas?

Claro, os lugares influenciam sim. Para mim, todas as experiências influenciam – a cultura, os sons dos idiomas e a cultura emocional também. O meu processo é bem orgânico. Normalmente as melodias aparecem para mim nos momentos de movimento. Muitas vezes, eu acabo gravando Voice Notes no meu celular enquanto estou caminhando na rua. Despois eu sento para colocar harmonias e tal, mas normalmente sigo essa melodia e as palavras que vêm junto a ela.

Como inspiração, você cita mulheres fortes como Florence e Stevie Nicks. Como era a cena do Canadá nesse sentido? As mulheres tinham mais espaço na música ou também é uma conquista mais recente?

Hmm eu acho que o Canadá tem e tinha muitas mulheres bem sucedidas na música – algumas das minhas influências: Feist, Sarah Harmer, Tegan and Sarah, etc. Mas sempre houve essa influência do “old boys club” também – especialmente nos trabalhos behind the scenes – os organizadores dos festivais, os produtores, os apresentadores, os técnicos de som (aqui quase sempre chamado “the sound guy”). É difícil montar um grupo formado só por mulheres, ou ter uma produtora, ou pessoas técnicas que são mulheres.

E hoje em dia, quais nomes femininos você indicaria para quem quer conhecer artistas do Canadá?

Jessie Reyez é uma força incrível. Acabou de aparecer no filme “Black is King”, da Beyoncé.

The Beaches é uma banda f*** de Toronto e que é só de mulheres. Elas gostam muito do rock e tem músicas muito legais.

Aiza é uma artista incrível de Montreal que canta em inglês e francês. Ela também tocou no ano passado (2019) na SIM São Paulo e tem um som incrível.

Emily Rose é uma cantora e compositora maravilhosa também.

Lido Pimienta é uma artista de Toronto que canta em espanhol e tem algo muito especial. Aqui tem o link para assistir a música que faz com a cantora da banda colombiana Bomba Estereo:

Quero também mencionar a minha amiga Rose Brokenshire que tem uma voz incrível e produziu um EP sozinha, em casa, na quarentena. Aqui tem o link para assistir o seu som disco lullaby chamado “Alright”:

Falando nisso, aqui no Brasil, você também fez parcerias com artistas brasileiras não só na música, mas também na moda e no design, incluindo aí a que resultou na capa de Over It feita pelo SoLi Girls. Como surgiram essas conexões?

Sim! Eu adoro colaborar. Eu conheci o trabalho da Larissa Lisboa pelo Instagram porque ela fez alguns desenhos para a banda Scalene. Depois, acabamos nos falando por direct. No ano passado, vi que ela começou uma empresa com Mayra Soares chamada “SoLi Girls” e, então, contratei as duas para criarem os posters da turnê no Brasil e depois a arte do meu EP! Fico muito feliz em trabalhar com elas.

Eu também fiz uma parceria com a estilista Tamara Kern, de Brasília, quando passei por lá durante a turnê. Eu conheci Tamara num evento do festival CoMa, e também seguimos em contato pelo Instagram haha. No ano passado fizemos um photo shoot em parceria para a sua nova marca Kern Oficial. Dá para ver algumas das fotos aqui: https://www.instagram.com/p/B9meLdfl0FL/ Acho muito importante trabalhar com outras mulheres. É algo muito especial e uma boa maneira de levantar as mulheres na indústria. 

A letra de “Over It”, apesar de pessoal, também tem aquela qualidade universal, você escuta e consegue lembrar na mesma hora de alguma situação parecida pela qual passou. As outras faixas do seu novo EP também tem essa característica? Pode falar um pouco sobre elas?

Sim, todas as músicas neste EP têm algum tema específico que tá baseado em algo da minha vida, mas também tem algo universal nisso tudo. Eu decidi chamar o EP de “Over It” porque cada música comunica algum aspecto da minha vida – ou da sociedade – que precisa mudar. A próxima música que eu vou lançar fala sobre conversa, sobre consentimento entre homens e mulheres.

Já passei por tantas situações em que mostrar uma simples gentileza, como sorrir para alguém ou dar um abraço, de alguma forma, fazem essas pessoas pensarem que têm direito a mim. Que podem me tocar – ou até dar em cima de mim – quando claramente não era a situação para isso. Eu quero que essa música também abra diálogo entre as pessoas sobre o que é consentimento.

Há outra música que fala sobre o mito que nos vendem, como mulheres, de que podemos ter tudo, mas então, a verdade tácita é a de que só podemos realmente ter tudo se sacrificarmos algo – nossa dignidade, nossos salários, nosso amor. Cada música do EP vem das minhas próprias experiências, mas acredito que possam servir para abrir mais conversas entre nós sobre alguns temas.

Para finalizar, quais são seus planos pós-pandemia?

Esse ano mudou muitas coisas para mim. Uma coisa importante é que eu quero ficar mais perto da natureza. Vou me mudar para as montanhas do Canadá para fazer mais música e cuidar da minha saúde. E, depois, quando as fronteiras reabrirem, eu quero fazer algumas turnês e voltar para o Brasil também!

Bruna Manfré

não é boa com descrições.

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